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Educação especial no caso de superdotados

Para haver inclusão na Educação, há casos que merecem atenção especial, defende o neuropsicólogo, psicanalista e pesquisador Fabiano de Abreu

Thomas Hessel - Palmas, TO

09/10/2020

| Atualizado em

09/10/2020
Educação especial no caso de superdotados

São Paulo, SP - A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência), sob n° 13.146, de 6 de Julho de 2015, ganhou ainda mais relevância nos últimos dias, sobretudo na Educação. Não apenas pelo Dia de Luta dos Direitos da Pessoa com Deficiência, celebrado no dia 21 de Setembro, mas principalmente pelo decreto do presidente Jair Bolsonaro, do último dia 30, n° 10.502, que Instituiu a Política Nacional de Educação Especial: Equitativa, Inclusiva e com Aprendizado ao Longo da Vida. O texto prevê diferenciação para alunos com deficiência ou que sejam superdotados. Medida criticada por diversas entidades de defesa da Educação e da Inclusão. No entanto, o neurocientista, psicanalista e filósofo Fabiano de Abreu tem uma visão um pouco diferente: a inclusão é fundamental sempre, por isso há caso em que devem ser criadas algumas diferenças para que ela seja efetiva.

Fabiano de Abreu foi agraciado com um QI (quociente de inteligência) acima da média. Seus 180 pontos lhe permitiram integrar a Mensa, organização internacional de pessoas com QI acima de 98 pontos de percentil, considerado elevado. No entanto, seu dom foi motivo de descontentamento ao longo dos anos escolares por não se fazer compreendido. Dessa forma, ele acredita que alunos com diferentes níveis de inteligência merecem atenção proporcional às suas capacidades para que todos atinjam os mesmos objetivos, em especial, os superdotados. “Todos os países mais desenvolvidos têm essa separação, no caso de superdotados, nunca tive uma atenção especial e minha vida só tomou um rumo devido ao meu esforço pessoal contra todos os empecilhos que há no Brasil para crescer como empreendedor, que foi o que me tornei”, afirma.

O estudioso da mente e da inteligência afirma que há aspectos a serem analisados. “Todos buscarão o seu melhor com foco e determinação. Mas nada disso adianta se não tiver apoio, alguém que enxergue, que se dedique de forma singular e não plural”, analisa o pesquisador. O decreto prevê tratamento diferenciado tanto para estudantes com deficiência física ou intelectual quanto para superdotados, o caso de Fabiano de Abreu.

O carioca, hoje radicado em Portugal, acredita que se tivesse tido uma educação diferente da tradicional seu período estudantil teria sido mais interessante. “Na escola eu não queria estudar e nem assistir às aulas, cheguei a ser convidado a me retirar no Colégio Bahiense no Rio de Janeiro”, lembra. Na quarta série, em uma escola católica, sua mãe foi questionada se Fabiano teria algum problema para falar, já que não se relacionava com os colegas, “depois, na oitava série, eu era o oposto, o rebelde sem causa que induzia os demais colegas e não era bem visto, mas nenhuma dessas escolas se preocupou em saber o motivo, avaliar a persona em si”.

Para alunos superdotados ou com alguma dificuldade cognitiva, a escola pode ser chata e maçante, o resultado é a falta de vontade de frequentar as aulas, que pode resultar em desinteresse pelos estudos e até abandono. “Hoje em dia percebo as nuances desta herança portuguesa na formatação da educação no Brasil, digo isso pois em Portugal é igual, também não valorizam talentos e pessoas especiais”. Sua superação foi atingida por força de vontade e estímulos fora da sala de aula, no entanto, o modelo brasileiro ainda tem dificuldade de lidar com outros olhares. “Tenho um amplo estudo sobre inteligência, educação e profissões que em breve serão publicadas. Até hoje, mesmo com o meu currículo, ainda busco melhores validações nos Estados Unidos, onde concluí graduações com isenções de pagamentos e eliminação de cadeiras, e em países como a França, onde faço meu Doutorado por convite. No entanto, nem Portugal, país de minhas raízes já que sou filho de português, nem o Brasil valorizaram qualquer tese que seja nem minha”, desabafa. Hoje, aos 38 anos, enfrentando inúmeras dificuldades para continuar suas pesquisas, Fabiano acredita que se houvesse uma visão diferente da Educação, seria diferente. “Se eu tivesse sido notado na escola, quem sabe eu já não teria sido um pesquisador e cientista há muito mais tempo? Triste realidade de uma cultura em que ninguém liga para nada disso e não percebe que tudo isso faria uma diferença para a própria vida. A prova disso é que todos querem morar na França e nos Estados Unidos”, destaca o cientista que banca do seu próprio bolso diversos trabalhos. “Sabe qual um dos melhores funcionários que uma empresa pode ter? a pessoa com deficiência. Pois, por falta de opção e por dedicação para provar seu valor, tendem a ser mais dedicados e bons no que fazem. O superdotado tem foco determinado e costuma ser bom no que faz. Todos buscarão o seu melhor com foco e determinação, mas é necessário haver educação singular”, finaliza.